Enquanto no Brasil o outono chega amenizando o calor agoniante que transtornou um pouco o verão, aqui nos EUA celebramos a chegada da primavera trazendo mais luz, brilho e cores depois de um inverno super rigoroso. Do fundo do meu baú de memórias, decidi republicar um artigo meu escrito quando minhas filhas gêmeas nasceram, há mais de 20 anos, e que foi publicado também no jornal americano The Register em julho de 2015.
Assim segue:
Conversando com alguém especial outra noite a respeito da Primavera, emoções me levaram a um fato importante na minha vida e por isso posso concluir definitivamente que “Eu Amo Orquídeas!” em especial a Laelia purpurata, cujo nome foi trocado recentemente para Hadrolaelia. Antes porém, devo admitir que meu verdadeiro fascínio é a tão simples “Margarida”, aquela mesma branca com várias pétalas e botão amarelo. Ela é uma flor que representa a inocência das crianças e aparece nos campos e ‘matos’ sem ser semeada pela mão do ser humano e por isso também é chamada de “flor do campo”.
Sua beleza e simplicidade me encanta. Realmente leva-me de volta a minha infância, quando outra flor semelhante a ela surgia em volta de minha casa, anunciando a chegada da primavera. O aroma espalhava-se à distância e me fascinava! Colhi-as para embelezar meu espaço onde brincava com as bonecas!
Já a orquídea é famosa por sua exuberância e nobreza! É a mais fina e elegante das flores! Em vez de campos, ela surge no litoral. E esta minha história iniciou-se em 2000, quando eu completei 10 anos de trabalho na área jornalística. Eu já não era mais a menina inocente que cresceu apreciando margaridas e outras flores do campo. Já era uma profissional dedicada e ocupada com a vida e os obstáculos que ela nos impõem.
Na internet, meu “nickname” era “Laelia-purpurata”. Por quê? Não por pretensão, mas por encanto, tirei de um trecho do livro que o professor universitário brasileiro Vilson Farias escrevera sobre minha cidade Sombrio. Em suas palavras, o escritor definia a Laelia purpurata como rainha das orquídeas, a mais bela do sul meridional, sendo o símbolo do meu estado Santa Catarina e da minha cidade. Uau… quem me dera ser tão importante!
Na época procurei então conhecer mais sobre as orquídeas. Fui buscar dois especialistas para uma matéria. Um deles tratava de germinação e outro de cultivo. O segundo me presenteou com uma Laelia purpurata venosa. Era o meu melhor presente ao completar os 10 anos de trabalho. Nem mesmo a festa em fevereiro de 2001 foi tão especial, embora linda e emocionante. Ele me disse que eu “deveria cuidar da orquídea como se cuidasse de um filho”. Eu não era mãe na época, mas entendi o que ele queria dizer e cuidei dela como tal. Minha “Laelia purpurata” tinha duas flores, lindas e com um aroma que encantava a todos que iam ao meu escritório.
Em 2001, na sua época de floração, nas três primeiras semanas de dezembro, novamente ela ostentou brilho e nobreza com mais duas flores. Fiz fotos! Ela era divina! Mas em 2002 eu me preparei para deixar minha terra e vir para os EUA, minha flor adoeceu. Percebi que tinha sentimentos e que sofria ao saber que eu a abandonaria e ao mesmo tempo, parecia saber que eu também sofria por deixar ali tudo e todos que eu amava. Eu quis levá-la de volta ao especialista para buscar a cura, mas a pressão com a viagem e com os tantos documentos que eu precisava preparar, me impossibilitaram de fazer isso. Viajei com a certeza de que ela morrera e em dezembro procurei não lembrá-la.
Dezembro de 2003, eu estava no meu primeiro mês de gravidez. Na minha família, somente minha irmã Nely sabia disso. Liguei pra falar com ela, mas foi minha irmã Schirley quem atendeu. Entusiasmada, ela me contou: “Sua orquídea deu duas flores!” Surpresa, perguntei-lhe: “Minha orquídea não tinha morrido!?” e Schirley então me contou que cuidará dela depois que parti. Cuidado e amor são necessários para a sobrevivência, em qualquer tipo de relacionamento e até mesmo as flores precisam disso. Desliguei o telefone e falei com uma amiga que então me disse, “flor tem sentimentos e ela floresceu porque sabe que você também floresceu”. Conclui então: “Só espero que eu também não tenha duas flores dentro de mim!”
Pode parecer estranho, mas minhas flores chegaram entre a primavera dos EUA e a do Brasil: Emily e Alice, minhas filhas gêmeas! Minha orquídea Laelia purpurata morreu então, assim que as gêmeas chegaram em julho de 2004!
Se o “nickname” era encanto ou pretensão, não posso determinar com certeza, mas posso dizer que procuro sempre manter a classe como a elegância das orquídeas e com o toque de simplicidade das margaridas. Afinal, as melhores coisas da vida, são as mais simples. Não concorda?
PS: Ao retornar a Sombrio em dezembro de 2020,trazendo as minhas filhas gêmeas pela primeira vez (agora aos 16 anos de idade), reencontrei-me com minha Laelia purpurata. Schirley pensara que a orquídea havia morrido e a atirou no fundo do quintal. Ela hoje pode ser apreciada todas as três primeiras semanas de dezembro, numa árvore onde ela insistiu em viver mais feliz, ou seja, no seu habitat natural.
Assim como a Laelia, às vezes tudo o que precisamos é de um lugar ou espaço só nosso. É preciso de vez em quando analisarmos se o ambiente em que vivemos não está nos prejudicando ao invés de nos proporcionar benefícios. Pare e analise!