Claudete MatosUm Natal de Menos Coisas e Mais Afeto

Um Natal de Menos Coisas e Mais Afeto

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Certa ocasião, assisti a um filme de Natal em que o amigo secreto tinha um propósito diferente: cada pessoa deveria preparar o presente com as próprias mãos. O resultado foi surpreendente.

Muitas vezes participei dessa brincadeira e acabei me decepcionando. Talvez por isso, hoje eu tente me esquivar — não por falta de vontade, mas para não reviver frustrações.

Quando criança, não tínhamos muito. Era um presente simples, e pronto. Ao vir morar nos Estados Unidos, passei a desejar um Natal como aqueles dos filmes, com pilhas de presentes debaixo da árvore. Não vou negar: isso me fazia bem. Ganhar presentes é maravilhoso.

Mas o tempo passa, e certos presentes acabam esquecidos. O embrulho bonito vai para o lixo e, com ele, talvez até as emoções daquele momento.

Quando completei 50 anos de idade, fiz uma pergunta em um post: “O que acontece daqui pra frente?”

Um amigo respondeu: “Até aqui você acumulou. Agora você desapega.”

Não era brincadeira. Foi exatamente isso que começou a acontecer.

“Coisas!”, dizia meu marido. Chega de coisas! E, sem perceber, passei a concordar com ele. Comecei a doar aquilo que já não fazia mais sentido para mim. Minimizar tornou-se um dos verbos mais usados no meu dia a dia o que tem refletido muito no quesito ansiedade e estresse.

Antes, eu entrava em uma loja para comprar uma coisa e saía com pelo menos mais duas. Hoje, estranho quando saio de mãos vazias — e, curiosamente, me sinto bem com isso.

Como naquele filme de Natal, descobri mais alegria e contentamento na simplicidade dos gestos de amor, na dedicação e nos momentos que se eternizam no coração.

Olho para a árvore, para os papéis de embrulho, e já não sinto aquela antiga euforia diante de presentes empacotados. Será que isso é normal? Será que sou diferente?

Meu marido e meus filhos concordam comigo. Momentos com a família e amigos são mais preciosos do que certas “coisas”.

Talvez o Natal não tenha mudado. Talvez quem mudou fui eu.

Com o tempo, entendi que a felicidade não cabe em caixas, não se embrulha em papel bonito e não se mede pelo que acumulamos. As coisas se gastam, quebram, perdem o brilho. As pessoas, quando bem cuidadas, se fortalecem.

Do meu baú de memórias: entrevista com a Banda Penélope da cantora Erika Martins quando a música “Namorinho de Portão” ganhava destaque nas paradas de sucesso. Na época a banda entrou em entrevista online (no saudoso Spy Bar) num bate-papo com a galerinha do canal #ararangua, um ponto de encontro virtual dos internautas (1999).

Aprendi que felicidade não se empilha debaixo da árvore — ela se constrói à mesa, nas conversas sem pressa, no afeto compartilhado e no tempo doado. Os momentos ficam. Os abraços permanecem. A presença se eterniza.

Talvez eu não esteja diferente. Talvez eu esteja melhor. E talvez seja esse o verdadeiro espírito do Natal: buscar felicidade uns nos outros, e não nas coisas.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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