sexta-feira, 30 DE janeiro DE 2026
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Eleição de 1989: o ano em que o Brasil voltou a escolher seu presidente e mudou os rumos da democracia

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Primeira eleição direta após 29 anos reuniu 22 candidatos, foi marcada por polarização, crise econômica e inaugurou uma nova era política no país

O ano de 1989 ocupa um lugar singular na história política do Brasil. Após quase três décadas sem eleições diretas para presidente da República, os brasileiros voltaram às urnas para escolher, pelo voto popular, o chefe do Executivo nacional. O pleito representou o ápice do processo de redemocratização iniciado com o fim da ditadura militar e consolidado com a promulgação da Constituição Federal de 1988.

Desde a eleição de Jânio Quadros, em 1960, o país havia passado por profundas rupturas institucionais. O golpe militar de 1964 instaurou um regime autoritário que suprimiu direitos políticos, censurou a imprensa e eliminou o voto direto para presidente. Durante esse período, os chefes do Executivo federal foram escolhidos por eleições indiretas. Em 1985, Tancredo Neves venceu o Colégio Eleitoral, mas morreu antes da posse, levando o vice José Sarney à Presidência em um contexto de transição democrática ainda frágil.

Crise econômica e expectativas populares

O governo Sarney enfrentou um cenário econômico dramático. A hiperinflação corroía salários, poupanças e a capacidade de planejamento das famílias, alcançando índices próximos a 2.000% ao ano. Planos econômicos sucessivos fracassaram, aprofundando o desgaste político e ampliando o desejo de mudança.

Nesse contexto, a Constituição de 1988 restabeleceu o voto direto para presidente, atendendo às reivindicações do movimento Diretas Já e reacendendo a esperança de milhões de brasileiros. Em 1989, cerca de 67 milhões de eleitores estavam aptos a votar, muitos deles participando pela primeira vez de uma eleição presidencial direta.

Cédulas gigantes, filas longas e apuração manual

A eleição ocorreu em dois turnos, nos dias 15 de novembro e 17 de dezembro de 1989. Diferentemente do que ocorre hoje, o processo foi totalmente realizado em cédulas de papel. As cédulas, de tamanho considerável, traziam 22 nomes de candidatos à Presidência da República, além dos respectivos vices.

Eleitores enfrentaram filas longas e, em muitos casos, dificuldades para localizar corretamente seus candidatos, o que contribuiu para um índice significativo de votos brancos e nulos. A apuração foi majoritariamente manual, com apoio limitado de sistemas informatizados, o que atrasou a divulgação dos resultados e gerou insegurança e desconfiança em parte da população.

Recorde de candidaturas e fragmentação política

A eleição de 1989 entrou para a história como a mais fragmentada já realizada no país. Ao todo, 22 candidatos disputaram a Presidência, reflexo da abertura política e da legislação partidária da época, que facilitava a criação de novas siglas.

Entre os principais nomes estavam Fernando Collor de Mello (PRN), Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Leonel Brizola (PDT), Mário Covas (PSDB), Paulo Maluf (PDS) e Aureliano Chaves (PFL). No primeiro turno, Collor surpreendeu ao liderar com 28,5% dos votos válidos, seguido por Lula e Brizola, ambos com 16,5%, em um empate técnico que manteve o país em suspense até os últimos momentos da apuração.

O fenômeno Silvio Santos e a decisão do TSE

Um dos capítulos mais emblemáticos daquele pleito foi a tentativa de candidatura do apresentador e empresário Silvio Santos. Oficializada a pouco mais de um mês da votação, a candidatura ganhou enorme repercussão popular e chegou a liderar pesquisas de intenção de voto, impulsionada pelo forte apelo televisivo do apresentador.

No entanto, o Tribunal Superior Eleitoral indeferiu a candidatura por unanimidade, sob o argumento de que o partido pelo qual concorria não atendia aos requisitos legais mínimos, como número suficiente de diretórios partidários. A decisão gerou grande repercussão nacional e levantou debates sobre a influência da mídia, o papel das regras eleitorais e o surgimento de candidaturas “outsiders” na política brasileira.

Silvio Santos não teve colocação oficial na eleição presidencial de 1989, pois sua candidatura foi indeferida pelo TSE em 9 de novembro, seis dias antes do primeiro turno. Seu nome não constou nas cédulas, e votos eventuais para o PMB (seu partido, número 26) foram mínimos ou anulados, com Armando Corrêa registrando apenas 0,01%

Campanha polarizada e o protagonismo da televisão

O segundo turno, disputado entre Fernando Collor e Luiz Inácio Lula da Silva, foi marcado por intensa polarização política e ideológica. Collor se apresentou como um candidato jovem, moderno e combativo, adotando o discurso do “caçador de marajás” e prometendo combater privilégios e corrupção. Lula, por sua vez, representava a esquerda sindical e defendia reformas sociais profundas, com forte apoio das classes trabalhadoras.

A televisão teve papel central na campanha. O debate final exibido pela TV Globo tornou-se um dos episódios mais controversos da história eleitoral brasileira, sendo alvo de críticas e acusações de favorecimento político por conta da edição exibida nos telejornais da emissora.

Vitória, governo e queda

Fernando Collor venceu o segundo turno com cerca de 53% dos votos válidos e tomou posse em março de 1990. Seu governo iniciou com promessas de modernização econômica e combate à inflação, mas rapidamente enfrentou forte desgaste político. O Plano Collor, que confiscou poupanças e aplicações financeiras, causou profundo impacto social.

Em 1992, denúncias de corrupção envolvendo o tesoureiro de campanha, Paulo César Farias, levaram ao impeachment do presidente, encerrando de forma abrupta o governo eleito no primeiro pleito direto pós-ditadura.

O legado de 1989 e as lições para o presente

Apesar do desfecho traumático, a eleição de 1989 deixou um legado duradouro para a democracia brasileira. Ela reafirmou a importância do voto direto, evidenciou os riscos da fragmentação excessiva e mostrou o poder da comunicação na formação da opinião pública.

Às vésperas de novas eleições, o pleito de 1989 permanece como referência histórica e alerta permanente: a democracia é uma construção contínua, que depende de instituições fortes, imprensa responsável e eleitores conscientes para se manter viva e legítima.

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