Uma expedição científica realizada no litoral sul de Santa Catarina trouxe à tona descobertas importantes que reforçam o valor ambiental de Balneário Gaivota e acendem um alerta sobre a preservação da biodiversidade local.
Pesquisadoras da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Juliana de Paula-Souza e Suzana Alcantara, em parceria com o Laboratório Scientia Amabilis, estiveram na região em novembro de 2025 com o objetivo de localizar uma planta extremamente rara no estado: a Gunnera herteri, popularmente conhecida como “urtiguinha da praia”. A espécie, discreta e de poucos centímetros de altura, contrasta com sua “parente” mais conhecida, a Gunnera manicata, típica de áreas de altitude e famosa por suas folhas gigantes.
Até então, a presença da Gunnera herteri em Santa Catarina era registrada apenas duas vezes: a primeira em 1944, na região que hoje corresponde a Balneário Gaivota, e outra em 2022, em Laguna. A missão da equipe era justamente verificar se a espécie ainda existia no local onde foi identificada pela primeira vez, há mais de oito décadas.
Após dois dias de buscas sem sucesso, a descoberta veio de forma inesperada: a planta foi encontrada em um terreno desocupado, em um loteamento recente próximo ao local onde as pesquisadoras estavam hospedadas. Apesar da confirmação histórica, o cenário preocupa. A área apresenta sinais de degradação, e a continuidade da espécie naquele ponto pode estar ameaçada pela expansão urbana.
Além dessa redescoberta, a expedição resultou em outro achado significativo, desta vez envolvendo uma orquídea rara. Durante a coleta de rotina — prática comum em estudos botânicos — uma espécie foi registrada e posteriormente identificada, com auxílio da plataforma de ciência cidadã iNaturalist, como Cyrtopodium fowliei. O dado surpreendeu especialistas, já que este é o primeiro registro da espécie não apenas em Santa Catarina, mas em toda a região Sul do Brasil. Até então, sua ocorrência era conhecida apenas até o estado de São Paulo.
Segundo especialistas, a descoberta reforça o quanto a flora brasileira ainda é subamostrada e pouco conhecida, especialmente em áreas que vêm sofrendo rápida transformação. Mesmo em ambientes urbanizados, como loteamentos à beira-mar, ainda é possível encontrar espécies raras e de grande valor científico.

As amostras coletadas durante a expedição foram incorporadas ao Herbário FLOR, da UFSC, considerado o maior do estado. Esses registros são fundamentais para documentar a existência das espécies e subsidiar ações de conservação.
O caso de Balneário Gaivota evidencia a urgência de iniciativas voltadas ao levantamento e preservação da biodiversidade local. Também destaca o papel da população nesse processo: por meio de ferramentas como o iNaturalist, qualquer cidadão pode contribuir com registros fotográficos e ajudar pesquisadores a mapear a flora da região.
As descobertas mostram que, mesmo diante do avanço urbano, a natureza ainda resiste — mas por quanto tempo, dependerá das escolhas feitas agora.










