Iago R. LlantadaA nova economia das relações humanas

A nova economia das relações humanas

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Caro leitor, não tenho a pretensão de entediá-lo com longas divagações antropológicas acerca da pré-história. Mas convém recordar: houve um tempo remoto em que a humanidade ainda aprendia o ofício de lapidar pedras. E talvez seja possível imaginares que lapidar pedras não seja tão dificultoso quanto lapidar a si mesmo, de forma que dominamos atualmente as mais variadas formas de transformar os minerais. Mas, o domínio próprio, este ainda estamos em curso de aprendê-lo.

Quando me refiro a lapidação dos minerais, não quero que penses tão somente nos grandes monólitos imóveis nas margens dos rios, pertencentes mais à natureza do que aos homens. Quero que penses num fragmento de pedra lascada, que foi transformada em ferramenta pelas mãos fatigadas de algum ancestral esquecido. Essa é a história do teu passado, em que um ser humano, muito parecido contigo, extenuado pelo esforço rupestre da sobrevivência, descobriu que uma lasca de pedra poderia ser-lhe útil para desenvolver ferramentas que lhe facilitassem a obtenção de recursos. Assim nasceu, de forma abstrata, uma lógica de economia primitiva, na qual o uso da inteligência e da criatividade passou a ser o principal motor de desenvolvimento da nossa espécie e de todas as civilizações ao longo dos séculos.

A história das civilizações, tal qual a concebemos, surge em uma via de mão dupla entre esforço e engenho: o ser humano transforma o espaço ao seu redor e, sem perceber, acaba sendo transformado por ele. Depois da pedra vieram o fogo, a roda, a escrita, os mapas, os relógios, as máquinas e os motores. Cada invenção parecia ampliar magnificamente a capacidade humana de produzir a si mesma e ao mundo à sua volta. A roda encurtava distâncias. O telescópio ampliava horizontes. O livro expandia a memória. A linguagem, essa tecnologia invisível (e talvez a mais sofisticada de todas), permitiu ao ser humano organizar tribos, impérios e estabelecer cultos aos deuses.

Mas há algo de curioso nesta atividade de criar ferramentas. Depois de certo tempo, elas deixam de servir apenas ao ser humano, e passam também a remodelá-lo. Por exemplo, a postura ereta adquirida evolutivamente pelo Sapiens, foi uma consequência da necessidade de manipularmos os instrumentos de caça, criados pela nossa própria espécie. As cidades criadas em torno de centros comerciais alteraram hábitos de vida, de convivência e instituíram regras de moralidade. O relógio industrial reorganizou o tempo da vida. E agora, discretamente, outra invenção parece remodelar as almas contemporâneas.

Pela primeira vez na história, criou-se uma ferramenta que passou a competir com a própria inteligência humana, a qual chamamos inteligência artificial. Uma inteligência que também é capaz de produzir a si mesma. Talvez esteja aí a verdadeira revolução do século. A maior descoberta da era contemporânea não foi o celular e nem a internet. Tão pouco as redes sociais… Todas essas ferramentas tecnológicas não passam de instrumentos designados a uma utilidade maior. A grande descoberta da nossa era foi a de que o desejo humano pode ser administrado economicamente em escala industrial. A inteligência, os sentimentos e as virtudes, passaram a ser utilizados com o viés de nos transformar em produtos artificiais do consumo em massa. E todas as ferramentas tecnológicas operam, em sinergia, para o alcance deste objetivo enigmático.

As antigas vitrines vendiam objetos. As novas vitrines virtuais, estímulos. E o mais curioso é que o indivíduo moderno já não consome apenas produtos: consome pequenas doses de euforia. Desliza o dedo sobre telas de vidro e recebe pequenas quantias de prazer imediato. Repete o gesto, nova descarga. Uma liturgia silenciosa, repetida copiosamente como uma oração sem transcendência. Há quem acredite conhecer os segredos da vida sem jamais tê-la, de fato, convidado-a para um café em uma tarde de chuva, silenciosa. Afinal, toda a genialidade dos grandes escritores pode ser facilmente compreendida, hoje, em vídeos de quinze segundos. A satisfação imediata dos desejos por impulsos bioquímicos vem transformando a vida em um produto inerte e enlatado. A leitura, por exemplo, tornou-se memória póstuma das gerações analógicas, e os livros, antes fonte de deleite e de sabedoria, agora vêm sendo cumprimentados com acenos tímidos e com o desconforto das cabeças mal voltadas. A inteligência humana na era industrial é alimentada pelo consumo de frases prontas, comercializadas em velocidade tão absurda que seu efeito mais comum tem sido a indigestão. O resultado: carência nutritiva da alma.

Injusto culpar os indivíduos. Os ambientes sempre educaram as gerações. As catedrais moldaram espíritos medievais. As fábricas disciplinaram os homens industriais. E o ambiente digital, sobretudo algorítmico, parece agora educar uma humanidade sem identidade própria. Sujeitos são mistérios para si mesmos, pois o mundo não permite mais a busca por convicções bem fundamentadas. O mundo cansou de produzir almas humanas. A lógica do consumo bateu à porta das relações interpessoais, e tornou-nos, a todos, pedras lascadas produzidas em massa. E a conta da insatisfação não pode fechar, pois ela é que mantem ativo o ciclo orgânico da evolução original.

Os algoritmos foram programados para atuar em uma esfera capaz de reproduzir perfeitamente “O Mito da Caverna de Platão”. O ser humano é perigosamente atraído pelos efeitos que a novidade causa no seu sistema interno de recompensas. As sombras, agora coloridas e barulhentas, movimentam-se enérgicas nas paredes do mundo digital, enquanto, deslumbrados, os indivíduos acreditam estar diante da verdadeira realidade. O problema é que a alma humana não amadurece na velocidade dos estímulos frenéticos lançados nestes ambientes. Os sentimentos mais sublimes precisam de tempo, silêncio, e de um esforço consciente para o seu pleno desabrochar. A contemplação exige intenção. A profundidade do ser exige permanência, e o cultivo das virtudes da alma pode ser muito bem explicado pela jardinagem.

Mas a permanência não produz engajamento, e vende pouco. O mercado prefere movimentos distraídos e desconexos. E talvez esteja aí uma das tragédias mais contraditórias do nosso tempo: a economia da dopamina rouba o lugar do amor genuíno e o sepulta com doses cavalares de sentimentos vulgares. Venderam-nos gato por lebre… interações superficiais por afeto, validação por intimidade, e desejo por ternura. Rótulos exuberantes em produtos vazios. O prazer imediato tornou-se tão acessível que a paciência necessária para construir vínculos profundos agora chega a ser antiquada. Vivemos cercados de pessoas inquietas e emocionalmente famintas.

Nunca houve tanta exposição, e talvez nunca tenha sido tão difícil encontrar presença. No fundo, suspeito que a economia moderna da dopamina não comercialize apenas atenção. Ela comercializa ausência. A ausência do silêncio. A ausência da contemplação. A ausência do outro. E, aos poucos, esse ambiente está criando indivíduos que buscam experimentar e sentir de tudo que o mundo oferece, exceto aquilo que realmente importa.

Advogado, professor e escritor por vocação.

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