Uma vez eu tive um grave conflito com um gambá que invadiu o sótão da minha casa. Refiro-me a um animal, e não a um ser humano que beba demais. Eu não trataria mal a ninguém nessas condições, uma vez que eu não sou muito diferente destes. Talvez só o que nos distinga seja a quantidade ingerida e o “modus vivendi”. Na ocasião eu precisava me desfazer do bichinho, porque ele me causaria transtornos. Minha mulher também não aguentaria dois gambás em casa. Um de nós tinha que sair.
Como ele não se prontificou, apelei para especialistas. Um vizinho sugeriu matá-lo. Não concordei. Sou contra pena de morte. Outra, mais diplomática, achou que deveríamos usar uma armadilha; um “funil”, feito de taquaras, no qual o gambá entraria e ficaria embretado. Ajustada a empreitada, aplicou-se a estratégia. O gambá foi desalojado e eu me reintegrei na posse.
Pensei que os meus problemas estavam resolvidos. Ingenuidade minha. Como dizia Luís de Camões: “Onde pode esconder-se um fraco humano?/Onde terá segura a curta vida?/Que não se arme e se indigne o céu sereno/Contra um bicho da terra tão pequeno”. Aqui no caso o bicho era eu. Na semana seguinte um gato invadiu a minha casa. Caramba!
A porta da área de serviço estava aberta e por lá o felino adentrou. Sua posse viciada logo foi flagrada pelo meu neto Iago, quando este entrou naquela peça logo defrontou-se com o felino. Constatado o esbulho, Iago tratou logo de proteger a posse da família, usando o desforço pessoal, atitude que a lei admite até com humanos. Não obteve êxito. O gato assustou-se e saiu em tresloucada fuga. Bateu contra uma porta de vidro fechada e sofreu forte impacto. A seguir contra uma janela, o mesmo aconteceu. Tonto, com dores e assustado o bichano não tinha condições emocionais de administrar a situação com racionalidade. Assim, pulou para cima da máquina de lavar roupas, que estava com a tampa aberta e nela refugiou-se. Pronto! Estava causado o impasse.
Não permiti que ninguém lhe tocasse. Ele estava em pânico e muito agressivo. Era uma situação de alto risco. Tentei persuadi-lo a sair pelos meios pacíficos. Iniciei uma negociação. Dei-lhe um prazo para se retirar. Ele não saiu. Esgotados os meios pacíficos, a saída era apelar para a força. “Quando a toga não resolve, usa-se a espada”. Exército? Nem pensar. A polícia? Fora de cogitação, pois usam armas e poderia haver um confronto com graves consequências. Chamei os Bombeiros e fui prontamente atendido. Vieram três corajosos soldados do fogo, devidamente equipados. De pronto, expulsaram o invasor. Fui mais uma vez reintegrado na posse. Agora estou me preparando até para eventuais ataques aéreos de morcegos, marimbondos ou pássaros. Lembrei-me dos romanos, sempre sábios: “Si vis pacem para bellum”.








