Claudete MatosA Coragem de se Transformar

A Coragem de se Transformar

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Você já parou para observar uma criança brincando? E se você pudesse voltar agora a um momento da sua infância — um momento onde brincava sem pressa alguma do futuro e sem se importar com os obstáculos à sua volta —, o que essa imagem representaria?

Outubro chega sempre trazendo doces lembranças para mim. Acho que já me habituei a esperar pelas redes sociais nesta época do ano, vendo as fotos de perfil mudarem para imagens de infância. Eu não sei você, mas eu amo essa transformação.

Aqui na Nova Inglaterra, a transformação acontece através das árvores multicoloridas. É um verdadeiro espetáculo de cores que se misturam entre o laranja, o amarelo, o vermelho, o castanho, o vinho e o próprio verde. O outono aqui é extraordinário — breathtaking (de tirar o fôlego)! E não acontece do dia para a noite: essa transformação vem aos poucos, dia a dia, nos impressionando nos detalhes.

“Quase todas as pessoas que encontro hoje em dia sentem que têm coisas demais para lidar e tempo insuficiente para fazer tudo”, comenta David Allen no seu livro A Arte de Fazer Acontecer.

Às vezes me pergunto: será que temos tempo para observar uma criança brincando ou a transformação da natureza? Será que, se pararmos por um instante, conseguimos sentir esse impacto dentro de nós e inalar o ar puro, trazendo paz e contentamento mesmo num momento de estresse e ansiedade?

Nesta correria de querer fazer tudo ao mesmo tempo, acabamos por nos esquecer do simples e do belo. A gente complica até mesmo o descomplicado. Corremos na tentativa de alcançar o amanhã, sem saber se ele realmente chegará. E, nessa busca incessante, perdemos a oportunidade de viver o aqui e o agora.

Outro dia, fiz uma chamada de vídeo para a minha irmã Schirley enquanto dirigia para o trabalho. Deixei a câmera direcionada para a estrada para que ela pudesse ver o meu caminho. A minha intenção era que ela sentisse o mesmo que eu sinto ao atravessar as rodovias: o encanto de estar envolvida pela magia das árvores multicoloridas.

Aquele momento foi único, porque hoje me faz imaginar como seria se analisássemos tudo isto através das lentes de uma criança. Poderíamos viver cada instante sem pressa e nos surpreender com a descoberta do que vem depois da curva.

Os adultos complicam demais! Quase ninguém tem tempo para esperar pelo que vem depois da curva. Criamos a ilusão de que controlamos tudo e traçamos linhas retas, com prazos inflexíveis, planos perfeitos e metas calculadas milimetricamente.

Mas a natureza ao nosso redor não funciona assim — e nos dá uma lição diária.

As folhas aqui na Nova Inglaterra não caem com pressa; elas mudam de cor devagar, no seu próprio tempo, transformando a paisagem ao redor num espetáculo fascinante.

Assim também deveríamos viver: sem a urgência cega pelo amanhã. Mesmo que seja preciso planejar e resolver problemas, podemos fazer isso sem a ilusão de querer controlar o imprevisível.

Simplificar a vida adulta não é fugir para o passado ou esquecer as responsabilidades, mas escolher encarar o dia de hoje sem a armadura pesada do perfeccionismo. É buscar leveza no andar, autenticidade no agir e abrir espaço no peito para respirar. É lembrar que, tal como quando éramos crianças, ralar os joelhos faz parte de aprender a andar de bicicleta.

Portanto, da próxima vez que a ansiedade quiser dominar a sua rotina, não tente resolver o mundo de uma vez. Apenas dê a mão à criança que vive em você, sorria para o desconhecido e ajuste o equilíbrio para continuar a pedalar.

Diga-me, quando foi a última vez que parou alguns minutos para contemplar algo belo (como a natureza ou uma memória boa) sem pensar na sua lista de tarefas?

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