Franco VasconcellosSer feliz sem motivo

Ser feliz sem motivo

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No auge da minha autoimportância, ouvi o rapaz gritar, ao abrir a tampa de um container:
— “Olha só, neguinha! Quanto papelão!”
A moça, radiante, respondeu:
— “Deus é bom demais!”
Confesso que fiquei em choque. Eles celebravam papelão! Enquanto eu, com um teto sobre a cabeça e um coração cheio de bênçãos, estava lá, desfilando uma carranca digna de Jó nos piores dias.
Lembrei de Paulo, aos Filipenses: “Aprendi a estar contente em toda e qualquer situação.” Será que eu tinha aprendido isso mesmo ou só decorado para soltar em ocasiões estratégicas?
Olhei novamente para o casal, agora com outros olhos. Eles não só recolhiam papelão; recolhiam alegria no caminho. Era como se cada pedaço encontrado fosse um milagre, uma prova de que Deus cuida até mesmo nos detalhes.
Voltei para casa engasgado, chorando e rindo da minha própria ironia. No lixo, eu vi a sabedoria. E percebi que minha coleção de problemas era um luxo: não eram maiores que o Deus que eu sirvo.
Decidi, então, fazer como o casal e relembrar de celebrar as pequenas bênçãos. Quem sabe um dia também vou gritar:
— “Olha só, quanto papelão!”
E, com um sorriso no rosto, lembrar que a verdadeira riqueza está em viver. Afinal, como dizia Drummond (e agora eu entendo de verdade): “Ser feliz sem motivo é a mais autêntica forma de felicidade.”
Afinal, viver já é motivo suficiente para celebrar… até o papelão!
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