Franco VasconcellosBlitz na Rússia acaba em riso

Blitz na Rússia acaba em riso

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Depois de um dia longo, daqueles que parecem carregar mais horas do que deveriam, lá estávamos nós: eu, Carla, minha esposa, e nossa filha caçula, enfrentando a noite. Voltávamos para casa, mas o cansaço já fazia questão de ocupar todos os lugares do carro. Mal sabíamos que a jornada reservava mais um capítulo para o dia — e que seria escrito na Lomba da Rússia, quem é daqui sabe onde fica.
E, como toda boa história, esta começa com luzes. Mas, desta vez, não eram faróis de Natal nem lanternas de festa. Eram luzes de uma blitz. O velho Palio de quase 30 anos foi avistado, e logo veio a ordem: “Boa noite. Documentos do veículo e CNH, por favor”.
Entreguei os papéis com aquele misto de confiança e resignação que só quem dirige um carro velho conhece. Foi então que ouvi: “A foto está muito diferente… é o senhor mesmo?” Era de se esperar. Quando tirei minha última CNH, eu estava 50 quilos mais leve, sem cabelos, enfrentando o câncer. Aquele rosto magro e abatido no documento parecia um irmão distante que há muito não via. Puxei meu RG para reforçar a identidade. “Sou eu, sim. Atualizado, só o documento do carro, que está no celular”.
Enquanto os policiais conferiam tudo, Carla olhava pela janela, e eu… bom, eu deixei os faróis do Palio acesos. Quando fomos liberados e tentei dar a partida, o carro não respondeu. Nada. Nem um suspiro.
“Ah, bateria”, pensei com a calma de quem já sabe que o Palio adora escolher os piores momentos para lembrar sua idade. Foi então que os policiais, aqueles que haviam acabado de me parar, se tornaram mecânicos noturnos. Um deles foi até a viatura e chamou o colega. (Eu tenho os cabos… o Palio é um senhor). “A gente sempre aprende”, comentou o segundo policial enquanto apontava a lanterna da arma para a bateria do meu carro. A cena tinha tudo: adrenalina, tecnologia improvisada e, claro, o Palio, sempre o protagonista.
Entre tentativas e ajustes, o velho guerreiro finalmente voltou à vida. O motor ronronou com aquela energia renovada, como se o dia comprido não tivesse existido. Agradecemos aos policiais, que voltaram à sua ronda noturna, agora com mais uma história para contar — ou talvez rir, vai saber. Sei que sou grato a eles.
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