Por Eduardo Herculano, advogado criminalista
O calendário institucional brasileiro não parece regido pela objetividade do tempo cronológico, mas por uma circularidade mítica. Como um ritual que se repete a cada despertar de janeiro, o país assiste à deflagração de novas fases de operações policiais que expõem as vísceras do poder.
Em 2026, o marco zero dessa recorrência atende pelo nome de Operação Overclean. Ao mirar desvios de emendas parlamentares e alcançar figuras do alto escalão legislativo, a ação da Polícia Federal não apenas inaugura o ano jurídico, mas reitera uma melancólica lição: no Brasil, a corrupção deixou de ser o desvio ético para se tornar a própria fisiologia do sistema.
O enredo, embora mude de personagens e siglas, mantém a mesma estrutura de captura do bem comum por interesses privados. Entretanto, o que a Overclean traz à superfície com renovada clareza é a centralidade da lavagem de dinheiro. No teatro da criminalidade moderna, a apropriação do recurso público é apenas o primeiro ato. O clímax reside na técnica silenciosa de ocultação, onde o capital espúrio busca o esquecimento de sua origem.
O dinheiro oriundo do peculato, marcado pela mácula do desvio, exige uma transmutação alquímica. É necessário “lavar” não apenas para esconder o volume, mas para apagar a memória do crime, conferindo ao patrimônio uma certidão de nascimento fictícia e uma estética de legalidade.
Nesse processo de reinvenção narrativa, a lavagem de capitais funciona como uma tentativa de fraude contra a própria realidade. Através de engenharias financeiras e contratos simulados, o ilícito busca a aceitação social, permitindo que o produto da corrupção circule sem os constrangimentos da culpa.
O Direito, portanto, não enfrenta apenas um crime contábil, mas uma patologia da confiança. Quando o capital desviado das emendas parlamentares, recursos que deveriam irrigar a saúde e a educação, é reintegrado à economia como lucro legítimo, rompe-se o contrato social em sua base mais elementar.
A Operação Overclean sinaliza que o enfrentamento à corrupção é inócuo se não atingir o elo da lavagem. O combate a essa “limpeza” simbólica é o que impede que o ilícito se profissionalize e se torne um risco calculado de alta rentabilidade. E
Enquanto a sociedade brasileira aceitar a circularidade desses escândalos como uma estação inevitável do ano, o país permanecerá refém de uma ética de fachada.
Afinal, a justiça não se faz apenas com a punição do ato, mas com a asfixia do mecanismo que permite ao crime vestir o terno da virtude financeira.










