Embora o vírus Nipah (NiV) não represente, neste momento, uma ameaça iminente de surto no Brasil, especialistas alertam que há, sim, risco de o patógeno chegar ao país, principalmente por meio de viajantes internacionais. A avaliação, no entanto, é de que a possibilidade de disseminação ampla em território nacional é reduzida, em razão das características de transmissão do vírus.
Segundo o infectologista Julio Croda, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e professor da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), a globalização e a facilidade de deslocamento entre países tornam possível a importação de casos.
— O risco de chegada existe por conta das viagens internacionais, mas o risco de disseminação local é baixo pela característica do vírus — afirma Croda.
O infectologista Benedito Fonseca, professor da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (USP) e consultor da Sociedade Paulista de Infectologia, reforça que não há barreiras geográficas capazes de impedir completamente a circulação de vírus emergentes.
— O período de incubação do Nipah varia de 4 a 14 dias. Uma pessoa pode se infectar na Índia, por exemplo, viajar para outro país e só manifestar os sintomas depois. Isso pode gerar um foco localizado de transmissão, mas não vejo um risco elevado de estabelecimento do vírus no Brasil — explica.
Transmissão e reservatórios naturais
O vírus Nipah circula principalmente entre morcegos do gênero Pteropus, conhecidos como morcegos frugívoros. A transmissão para humanos pode ocorrer por meio do consumo de alimentos contaminados com saliva, urina ou fezes desses animais, além do contato direto entre pessoas infectadas.
— O reservatório natural são os morcegos, que se alimentam de frutas. Uma das formas de contaminação é a ingestão de frutas contaminadas. Em Bangladesh, onde há surtos frequentes, uma fonte importante de infecção tem sido a seiva in natura da tamareira, muito consumida entre dezembro e abril — detalha Fonseca.
Apesar de existir transmissão entre pessoas, os especialistas destacam que essa via é pouco eficiente.
— É necessário um contato muito íntimo com secreções de pessoas contaminadas. Por isso, o risco de o Nipah se tornar a próxima pandemia é bastante baixo — avalia Croda.
Sintomas e gravidade da doença
A infecção pelo vírus Nipah costuma começar com sintomas inespecíficos, como febre, mal-estar, dor de garganta, dores no corpo e dores de cabeça. Em alguns casos, a doença pode evoluir para quadros respiratórios graves ou para encefalite, inflamação no cérebro associada a alta taxa de mortalidade.
— A doença pode evoluir rapidamente para comprometimento neurológico, convulsões e coma. Todo paciente que tenha viajado para regiões afetadas e apresente esses sintomas deve ser investigado — orienta Fonseca.
A taxa de letalidade varia entre 40% e 75%, dependendo do surto e da capacidade do sistema de saúde local de identificar e tratar os casos.
Preparação e vigilância
Mesmo com baixo risco de epidemia no país, os especialistas defendem que o Brasil esteja preparado para responder rapidamente a eventuais casos importados. Entre as medidas recomendadas estão o fortalecimento da vigilância epidemiológica, a capacidade de diagnóstico molecular por meio de testes PCR, o monitoramento da importação de alimentos — especialmente frutas — e a estruturação de centros de referência para atendimento.
— É fundamental garantir equipamentos de proteção individual adequados. Em surtos na Índia, muitos profissionais de saúde se infectaram em ambiente hospitalar por falhas no uso de EPI — alerta Croda.
Atualmente, não existem vacinas ou medicamentos específicos contra o vírus Nipah. O tratamento consiste em cuidados intensivos de suporte para controlar complicações respiratórias e neurológicas. A Organização Mundial da Saúde (OMS) classifica o Nipah como uma das doenças prioritárias para pesquisa e desenvolvimento, devido ao seu potencial de gravidade.
Histórico do vírus
O vírus Nipah foi identificado pela primeira vez em 1999, durante um surto entre criadores de porcos na Malásia. Desde então, foram registrados surtos esporádicos em países como Bangladesh, Índia, Filipinas e Singapura. Embora os morcegos hospedeiros estejam distribuídos por diversas regiões da Ásia e do Pacífico Sul, os episódios de transmissão para humanos permanecem, até agora, localizados e relativamente raros.










