Caderno, canetas coloridas, tablet e motivação na mão; lá fui eu esperar uma hora e meia pelo meu horário na manicure. Como estávamos de férias na belíssima Palm Coast, na Flórida, peguei uma carona com meu marido, que tinha um “café de negócios” às 9h.
A princípio, eu tinha todo o tempo do mundo para escrever, ler e, quem sabe, relaxar a mente com algum jogo eletrônico. Ledo engano! Quem me conhece sabe: onde quer que eu vá, faço conexões. Foi assim que conheci Donna, uma mulher elegante, na casa dos 60 anos. “Você está radiante”, comentei, perguntando qual era o segredo, já que aqui em Palm Coast as pessoas parecem mais felizes e ativas do que na minha fria Massachusetts.
Donna contou-me que, ao chegar de Nova York há sete anos, era acanhada. Tudo mudou quando ela e o marido começaram a jogar pickleball no parque local. “Hoje somos um grupo de vinte amigos!”, celebrou.
A história de Donna me fez lembrar das “Zonas Azuis” (Blue Zones). Esse projeto identificou que o segredo da longevidade não está em farmácias ou academias caras, mas no movimento natural e, acima de tudo, no sentimento de pertencer.
O “Segredo” que Simplifica a Vida
O que é fascinante sobre essas zonas é que a longevidade não vem de dietas mirabolantes, mas do Power 9 — os nove pilares identificados pelo pesquisador Dan Buettner. São eles:
- Movimento Natural: Caminhar, cuidar do jardim, viver de forma ativa sem depender de esteiras.
- Propósito: Ter uma razão clara para acordar todas as manhãs.
- Desacelerar (Down Shift): Rituais para reduzir o estresse, como oração ou meditação.
- Regra dos 80%: Parar de comer antes de estar completamente cheio.
- Dieta à Base de Plantas: Foco em grãos, vegetais e frutas.
- Vinho às 5: Consumo moderado em contextos sociais.
- Pertencer: Fazer parte de uma comunidade (geralmente de base espiritual).
- Família em Primeiro Lugar: Manter os laços familiares estreitos.
- Tribo Certa: Rodear-se de pessoas que apoiam comportamentos saudáveis.
Viver dez dias em Palm Coast foi como habitar minha própria Zona Azul. Em vez do barulho das academias, caminhei à beira-mar e entre carvalhos e palmeiras. Troquei o carro pela bicicleta, aproveitando as ciclovias que cortam a cidade. Pedalar me trouxe uma liberdade que faz bem tanto ao corpo quanto à mente.
O Down Shift (Desacelerar) é o ato de parar o “hamster interno” que insiste em girar a roda sem sair do lugar. O estresse que carregamos do ano anterior simplesmente desaparece quando trocamos as notificações do celular pelo som das ondas ou o canto dos pássaros.
Observar as pessoas conversando nas quadras, cafeterias e parques me fez valorizar ainda mais a conexão social. Percebi que a longevidade mora no “bom dia” que damos ao vizinho ou ao estranho que cruza nosso caminho na ciclovia.
Palm Coast me ensinou que simplificar não é apenas remover o excesso, é abrir espaço para o que é essencial: o sol, o movimento e o encontro. No fim das contas, a sua ‘Zona Azul’ não precisa ser uma coordenada no mapa da Flórida ou de qualquer outra parte do mundo. Ela começa no exato momento em que você decide que o seu ‘hamster interno’ já correu o suficiente e que a vida, para ser longa, precisa, antes de tudo, ser sentida.

Muitas vezes, passamos a vida acreditando que a felicidade é um destino que alcançaremos “um dia”. Mas, se a longevidade e o bem-estar dependem da nossa “tribo” e das nossas pausas, a pergunta que fica é, não é para onde você vai nas próximas férias. A verdadeira questão é: você está construindo uma vida da qual não precise fugir, ou está apenas esperando o momento oportuno — ou uma nova tempestade sacudir a sua estrutura — para começar a viver?
Aprendi com Donna e com as ondas de Palm Coast que a gente não envelhece por causa dos anos, mas por causa do isolamento e da pressa. A longevidade é um esporte coletivo. E você? Quem faz parte da sua tribo e o que você tem feito hoje para garantir que o seu “amanhã” valha a pena ser vivido?








