Sabe quando tudo parece ir no caminho certo? Aquele dia, ou aquelas semanas, onde tudo segue em perfeita sintonia e harmonia. Logo cedo, abrimos a janela e a luz do sol irradia, trazendo brilho à alma. Que sensação de bem-estar!
No entanto, de uma hora para outra, os alertas invadem as notícias: “Tempestade a caminho!”. Pasme! Quando? Como? Onde? Só quem já passou por grandes tempestades sabe o pânico e o estresse que elas podem causar. Elas podem passar rapidamente sem deixar sequelas, mas também podem surgir destruindo tudo, causando danos materiais, físicos e psicológicos.
Onde moro, em Massachusetts, os noticiários já nos mantinham em alerta durante a semana. Estava a caminho uma grande nevasca. Comércios que abriram no domingo começaram a fechar as portas já nas primeiras horas da tarde. A ordem era clara: fiquem em casa e tirem os carros das ruas.

Até quem não era fã de futebol americano rendeu-se à semifinal que decidiria os times do Super Bowl. Enquanto a neve caía lá fora, os Patriots (time de Boston) lutavam em campo, garantindo aquela vitória emocionante que nos levaria à grande final.
Aulas canceladas, bancos e serviços fechados na segunda e terça-feira. Porém, eu precisei encarar a tempestade para abrir o nosso Burger King. Enquanto grande parte dos restaurantes da nossa companhia operava apenas parcialmente ou nem conseguia abrir, eu não via a desistência como opção. Eu poderia ter encontrado mil desculpas; afinal, vivo na parte alta da cidade e, quando neva, costumo dizer que “acordei em Nárnia”.
Com uma pá na mão e neve até os joelhos, encarei o frio cortante de cerca de 30°C abaixo de zero. O desafio era desenterrar o carro e abrir espaço. Confesso: não foi fácil. Entretanto, se você me conhece, sabe que sou persistente. Sem fôlego e com as mãos congeladas — apesar das luvas especiais —, abri caminho e segui em frente.
Essa luta contra a neve me fez lembrar que, há mais de 200 anos, em 1717, esta mesma região enfrentou algo muito maior. Segundo o portal New England Historical Society, uma série de tempestades despejou mais de um metro e meio de neve sobre as colônias. O evento foi tão extremo que moradores do estado vizinho, New Hampshire (onde nasceram minhas filhas gêmeas), precisaram sair de casa pelas janelas do segundo andar!
O que mais me impressiona nessa história é a resiliência: em Boston, as pessoas passaram a se locomover usando pernas de pau. Como as estradas ficaram intransitáveis por semanas, a solução foi cavar túneis que permitissem, ao menos, ir de casa em casa. Eles não esperaram a neve derreter; eles criaram um caminho através dela.
Quando nos tornamos responsáveis por algo ou por alguém, nossa missão é encarar obstáculos e proteger com garras o que nos foi confiado. Seja em nossa casa ou no trabalho, precisamos buscar estratégias e enfrentar as tempestades de frente. Fugir não é uma opção.
É nos momentos de pressão extrema que descobrimos nossa verdadeira força. Assim como os Patriots não se deixaram abater e buscaram sua vaga no Super Bowl com garra, nós também devemos lutar nossos “playoffs” diários. Afinal, é sob pressão que o carvão se transforma em diamante.
Se a vida te mandar uma nevasca, não espere o sol: calce suas pernas de pau, cave seu túnel, mas chegue ao jogo. A vitória só pertence a quem se recusa a ficar no banco de reservas.








