Já comentei anteriormente sobre o antigo show americano intitulado “The Twilight Zone” (Além da Imaginação, no Brasil), que esteve no ar desde o final da década de 50 até meados dos anos 60. O show, apresentado por Rod Serling, é até hoje uma grande referência nos EUA. Prova disso presenciei em setembro de 2024, na cidade de Binghamton, em Nova York, quando centenas de fãs foram prestigiar o centenário de nascimento do criador e apresentador do show. Ao lado do meu marido, que também é super fã, conheci as filhas de Serling, Anne e Jodi, na ocasião em que também foi erguida uma estátua em sua homenagem.

“Cut!” (Corta!). Essa foi a cena que mais me chamou a atenção no episódio chamado “Um Mundo de Diferença”. É aquele capítulo fascinante onde um empresário descobre, de repente, que sua vida é apenas um personagem em um set de filmagens. Ele transita entre duas realidades — uma que acredita ser real e outra que é uma encenação.
Nas tantas vezes que voltei ao Brasil e enquanto estive de férias na Flórida, foi exatamente essa a sensação que senti. Dois mundos diferentes? Duas vidas? Sonho ou realidade?
Tem gente que me pergunta o que é “Nárnia” quando posto nas redes sociais fotos em dias de neve. Quem nunca assistiu “As Crônicas de Nárnia”, de C.S. Lewis, certamente não entende que me refiro a uma das obras mais icônicas da literatura fantástica.
Neste clássico, que acontece durante a Segunda Guerra Mundial, quatro irmãos são enviados para o campo e descobrem um portal para Nárnia no fundo de um guarda-roupa enquanto brincam de esconde-esconde. Ali, encontram um reino aprisionado em um inverno eterno de cem anos, causado pela cruel Feiticeira Branca. Para libertar Nárnia, os irmãos devem se unir a Aslam, o Leão, o verdadeiro Rei.
Mas, ao contrário dos irmãos, o meu guarda-roupa funciona de forma invertida. Quando as férias em Palm Coast terminam e cruzo o portal de volta para Massachusetts, não estou entrando em um mundo de fantasia; estou reentrando na realidade nua e crua.
O inverno de cem anos da Feiticeira Branca parece ganhar vida lá fora, mas o “inverno” que encaro aqui é o das agendas lotadas, do frio que exige camadas de roupas e da rotina que não perdoa. É nesse momento que o “Cut!” de Rod Serling ecoa na minha mente. É o despertar brusco. O set de filmagens da Flórida — com suas caminhadas, sol e conversas despretensiosas — é desmontado em um piscar de olhos.
De repente, as luzes se acendem, as câmeras param e eu me vejo diante dos inúmeros compromissos que me aguardam. Sinto-me exatamente como o empresário do episódio “Um Mundo de Diferença”: dividida entre a vida que a alma escolheu para descansar e a vida que o dever me impõe.
A “Nárnia” das minhas redes sociais, com a neve branquinha e o cenário de filme, pode até parecer um sonho para quem vê de longe. Mas, para mim, o guarda-roupa é o lembrete diário de que, embora eu habite o frio de Massachusetts e as obrigações do cotidiano, uma parte de mim ainda guarda a chave daquele outro mundo — aquele onde a vida é sentida sem pressa, e onde o gelo, finalmente, começa a derreter.
E você? Se alguém gritasse “Corta!” agora mesmo, o que restaria da sua realidade? Você está interpretando um papel que os outros escreveram para você, ou é o autor da sua própria história?
Quando suas férias ou mesmo o seu dia de folga acaba, encarar a realidade pode até parecer que você atravessou o guarda-roupa de volta para uma Nárnia gelada e cheia de deveres. Mas, antes que as cortinas se fechem no final do dia, lembre-se: você pode escolher ser a estrela de um “set” que não é feito de meras filmagens ou aparências, mas de grandes e reais acontecimentos.
A escolha é sua! Um “Mundo de Diferença” não começa com uma mudança de endereço ou de estação, mas no exato momento em que buscamos ser nossa melhor versão todos os dias, transformando o ordinário em extraordinário. Afinal, a realidade só é um fardo se não formos nós os protagonistas da nossa própria história.









