Claudete MatosA Arte de Calibrar o Compasso

A Arte de Calibrar o Compasso

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Um dos eventos mais memoráveis da minha vida foi quando, aos 14 anos de idade, após finalizarmos o ano letivo e o ensino fundamental, nossa turma fez uma viagem por pontos turísticos do Rio Grande do Sul — entre eles Gramado, Canela, Bento Gonçalves, Caxias do Sul, São Leopoldo e Porto Alegre. À frente de tudo, coordenando a viagem, estava a amável professora e regente da turma, Eleaci Zacca (in memoriam).

Em Bento Gonçalves, durante a visita à Vinícola Aurora, curiosa como sempre, eu caminhava ao lado do guia turístico, prestando atenção em tudo o que ele dizia. No entanto, se você me perguntar sobre o que vimos no decorrer do passeio, confesso que minhas memórias são vagas. Eu prestei atenção na história contada por ele, absorvendo cada palavra, mas observando quase nada ao meu redor.

Isso me faz lembrar de outras situações na vida. O ideal é observar o ambiente e absorver o melhor possível. Estar um passo à frente, na maioria das vezes, é algo positivo; porém, é importante aproveitar cada passo da jornada, desfrutando de cada aprendizado e coletando as melhores memórias.

Quando decidi buscar uma ferramenta para me organizar melhor, criei um cronograma de 12 semanas para ter um ponto de partida e um ponto de chegada claros. Dessa forma, eu poderia avaliar os passos dados e o meu progresso ao longo do caminho.

A motivação veio em boa hora: eu tinha extrapolado nas guloseimas dos eventos do casamento da minha filha e a balança smart já não me reconhecia. Os equipamentos de exercício estavam acumulando poeira e o projeto do meu livro parecia esquecido. Com o plano de 12 semanas em mãos, me senti motivada e convicta de que chegaria ao pódio com total sucesso.

No entanto, confesso que me decepcionei com os resultados na semana 3. Eu mal tinha saído do ponto de partida e não tinha atingido os 25% almejados. Aquela sensação de fracasso quis me derrubar. Na tentativa desesperada de correr contra o tempo, forcei o limite e quase levei uma distensão muscular na esteira.

Parei para um momento de meditação e leitura. Descobri que é perfeitamente normal sentir esse “frio na barriga” ou a impressão de estar correndo contra o tempo. Como diz David Allen em seu livro: “um dos principais motivos pelos quais muitas pessoas não têm obtido muito sucesso em se organizar é simplesmente o fato de tentarem fazer todas as cinco etapas de uma só vez”.

Talvez este seja um dos nossos maiores erros: querer lutar contra o tempo buscando a perfeição. Ledo engano! Perfeição é ilusão! Isso só vai carregar mais estresse e ansiedade — e, certamente, não é esse o nosso objetivo. Muito pelo contrário. Ao tentar se organizar, a ideia principal é exatamente minimizar estes dois fatores que teimam em prejudicar a nossa saúde mental e física.

Seja qual for o seu cronograma, lembre-se que a ideia de simplificação não é alcançar o objetivo estando um passo à frente, nem é a perfeição: é a consistência e a medição. Se a semana não saiu como o planejado, a gente ajusta o compasso sem culpa e foca nas táticas da semana atual. Aprenda a calibrar esse compasso sem surtar, perdoando os tropeços dos primeiros dias e mantendo o foco no que realmente importa.

Nas crônicas anteriores, já cobrimos:

  • Capturar: tirar da cabeça (olhos maiores que a barriga);
  • Esclarecer: decidir o que fazer com cada pendência;
  • Organizar: dar um “cabide” para cada chapéu.

Depois daquela viagem à Vinícola Aurora, em Bento Gonçalves, e a frustração por ter perdido as imagens que não vi, aprendi a prestar mais atenção ao meu redor. Em Porto Alegre, o último ponto de visita antes da volta para casa, foi o Shopping Iguatemi. Lá, junto aos meus colegas, pude contemplar por alguns momentos o belíssimo relógio d’água, projetado pelo físico e artista francês Bernard Gitton. Até hoje me embriago com a memória que insiste em brincar em minha mente.

O próximo passo lógico do GTD é Refletir / Revisar: qual a importância de parar um momento (como a sua revisão semanal) para olhar o mapa, ver o que está funcionando e o que precisa ser descartado antes de sair correndo às cegas?

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