Tudo o que me acontece e vejo me traz recordações da minha infância. Acho que nunca deixei de ser criança. Abro o meu coração contigo, meu raro e paciente leitor, para dizer-te que fiquei adulto e amadureci não porque quis, mas sim porque a vida é assim. Fui obrigado a deixar de ser infantil muito cedo, pois comecei a trabalhar aos doze anos de idade, do que não me arrependo. Depois, vieram as responsabilidades; os estudos, o trabalho, a família enfim. E aqui estou. Mesmo com todos os encargos da idade, que avança ano a ano, no íntimo ainda tenho muito de criança. É algo que me faz feliz. Sempre que eu vejo ou tomo conhecimento de coisas desagradáveis, que me levam a perder a confiança e a esperança nos homens eu fujo. Busco enveredar pelo mundo mágico dos pensamentos ingênuos que povoam o mundo infantil.
Alguma pessoa materialista e pragmática, ou talvez maldosa, com certeza irá me criticar, manifestando que fujo das responsabilidades, pois, acham que, ao contrário de me refugiar num mundo de fantasia, deveria enfrentar a realidade com destemor. Com todo o respeito ao que esse meu irmão, ou minha irmã, pensa e diz, e a quem eu admiro pela valentia, quero deixar claro que não fujo dos problemas do mundo real. O que estou querendo dizer é que enfrento os problemas com todo o vigor físico que me resta, a inteligência que possuo e as armas que disponho até o exato momento em que os resolvo, ou que eles me vençam. É daí por diante que eu vou curtir a minha alegria pela vitória ou a minha tristeza pela derrota no mundo dos sentimentos puros.
Essa foi a receita que achei para mim, para ter momentos de conforto, paz e felicidade, vivendo uma vida impossível de entender como é a nossa, e mais difícil ainda, de compreender o comportamento dos homens. Acho até que algumas pessoas cometem maldades e atrocidades porque perderam as alegrias de suas infâncias. Ser totalmente adulto, todo o tempo, deve ser horrível. Assumir a ideia de que se é velho, pior ainda. Tornarmo-nos adultos ou idosos biologicamente é inevitável, porém, é algo com que não podemos deixar nos envolver completamente. Enquanto tivermos o domínio da nossa mente, não devemos abandonar nunca os pensamentos ingênuos e puros da infância.
A vantagem que temos em nos tornarmos adultos é a possibilidade de melhor administrarmos pensamentos típicos de crianças. Não termos medo de amar, de termos lucidez para escolher as pessoas certas para conviver. A comida, a bebida, a música, a poesia, o livro que gostamos. Não termos vergonha de rir ou de chorar. Jamais perdermos a simplicidade das coisas puras. Termos humildade para pedir perdão e, nos momentos que antecedem ao desespero, Ainda que não tenhamos a certeza de que Deus existe, simplesmente dizer : – “Não me abandone, Pai”.








