Nos meus mais de trinta anos de advocacia atendi centenas de casais em casos de separações e divórcios. Os motivos eram os mais variados. Constatei que, quase que na sua totalidade, um dos dois foi a “fera ferida”. Ou seja, um deles vivenciou uma má experiência, sofreu uma decepção e ficou muito magoado. Nunca fui um advogado que saísse logo fazendo, de pronto, aquilo que o meu cliente desejava. Eu sempre queria ter a certeza de saber se era aquilo mesmo que o cliente realmente havia decidido. E principalmente se era o melhor para eles e os filhos. Deixei de ganhar algum dinheiro, paciência. Mas ganhei uma fortuna em consciência tranquila. Alguns colegas discordavam de mim, tendo sempre os honorários como prioridade.
Eu deixava a pessoa falar bastante, desabafar todas suas mágoas para, só então, fazer-lhe as perguntas que entendia necessárias. Costumava brincar dizendo-lhes que advogado é que nem padre; há de se contar tudo. E brincando se diz e se faz muitas coisas sérias. Sem querer entrar em detalhes, que não é esta a minha intenção, mas gostava de ter uma boa noção sobre a divisão justa do patrimônio, convicção sobre como ficaria a situação dos filhos e, por último, como ficaria o estado emocional do casal.
Eu queria saber muito do real sentimento dos meus clientes, em especial se ainda restava algum amor… Ou não. É simples de se avaliar. Quando eu questionava sobre este assunto e a pessoa chorava, ficava com a voz embargada ou com os olhos lacrimejados, é porque ainda existia algum amor. E aí, então, eu sugeria: – Quem sabe, evitemos a separação? Talvez ambos darem-se mais algum tempo, para refletirem melhor? Marcava para voltarem num outro dia. E que, nesse ínterim, conversassem mais, analisando os prós e contras.
Ah… que felicidade a minha quando, posteriormente, eu os via na rua, no mercado, numa evento qualquer, os antes “separandos”, agora de mãos dadas, ou abraçados, sorrindo, dançando ou até se beijando. Por que não? Sentia-me profundamente gratificado. Não poucas vezes tive que conter ou disfarçar as minhas lágrimas. Esta emoção, este sentimento, que se me abatia não tem preço. Até hoje lembro disso tudo com muito carinho.
Impossível viver sem amor. Terminar com um grande amor por causa de uma simples falha humana, perdoável, é perigoso. Corre-se o risco de não se encontrar outro igual ou melhor. Num novo amor não significa que não vá acontecer outra decepção. As pessoas são parecidas. Sempre haverá erros de um ou dos dois. Só se termina uma relação onde ainda haja amor, depois de ter-se absoluta certeza de que esta era a única saída. Toda separação é traumática. Se uma separação foi inevitável, então as partes merecem outra oportunidade, é claro. A vida sem amor não faz sentido, assim, nunca deixes de amar, porém, na próxima, procura escolher melhor. Tudo que eu te desejo é que sejas feliz.











