sexta-feira, 20 DE março DE 2026
Claudete MatosO Fio da Resiliência: A Arte de Recomeçar no Centro de Si

O Fio da Resiliência: A Arte de Recomeçar no Centro de Si

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Vivemos em um mundo que exige movimento constante, e a sensação de “parar” é quase sempre confundida com fracasso, quando na verdade pode ser um preparo. Em minha última crônica, falei sobre estagnação e de como às vezes o silêncio e a pausa podem ser os melhores antídotos para um momento de dúvida ou incerteza. A estagnação é, de fato, um serviço de utilidade pública hoje em dia, porém nem tudo o que parece, na verdade, é.

“Mais parece uma aranha”, dizia-me minha mãe, chateada com a minha demora quando me pedia para ir buscar algum legume na horta. Ela não sabia que aquele momento para mim era mágico. Não era falta de vontade ou preguiça. Eu me movia devagar porque a sensação de bem-estar me invadia ao cruzar entre os canteiros de hortaliças. Ela mantinha tudo tão limpo e tão lindo. Eu, menina, me sentia como se estivesse entrando numa floresta encantada.

Direto do meu baú de memórias: Um registro de 2001, batendo um papo com a galera da Banda Maskavo. Naquela época, o Brasil inteiro cantava “Um Anjo do Céu” e foi um privilégio registrar esse momento no auge do sucesso deles.

“Parece que tem aranha nos dedos”, dizia-me minha mãe outra vez, enquanto eu lavava a louça sem pressa. Novamente, não era preguiça ou má vontade; era o cuidado de observar alguma sujeira imperceptível. Ainda hoje sou assim cautelosa com as minhas louças.

A nostalgia faz bem à alma e ao coração. Relembrar essas expressões populares, clássicas do folclore brasileiro, faz-me hoje entender que eram apenas um tipo de “puxão de orelha” carinhoso.

Mas por que a aranha era a referência? Na primeira ilustração, lembremos que a aranha se move com cautela, testando o terreno com as patas ou ficando imóvel por longos períodos à espera da presa. Já na segunda, por ter as patas muito finas, a aranha parece tocar as coisas com uma certa leveza e delicadeza.

Uma outra ilustração, compartilhada pelo meu irmão Jair, é a que considero a mais impactante: se você destruir a teia de uma aranha dez vezes, ela começará a reconstruí-la dez vezes, sem reclamar do “tempo perdido” ou da “falta de inspiração”. E o que aprendemos com isso?

Ela não se julga por ter que recomeçar. Ela não entra em crise existencial porque a teia anterior sumiu. Ela simplesmente volta ao centro e começa o primeiro fio. É o Mindfulness puro: o foco total na ação presente, sem o peso do passado.

Muitas vezes, confundimos o silêncio da aranha com preguiça ou falta de rumo. Mas ela sabe que a teia trabalha para ela enquanto ela descansa. Estar estagnado, às vezes, é apenas estar no centro da própria teia, sentindo as vibrações do mundo antes de dar o próximo passo.

Quantas vezes os nossos sonhos foram destruídos ou quantas esperanças foram frustradas? Quantas portas foram fechadas e quantas metas não foram atingidas por circunstâncias fora de nosso controle?

Parar e reavaliar talvez seja o passo mais relevante. Talvez você precise recomeçar. Assim como a aranha: 10 vezes, 100 vezes. Talvez sem pressa, mas com passos firmes e estratégicos.

Afinal, a força da aranha não reside na teia destruída, mas na capacidade inabalável de permanecer no centro de si mesma. Recomeçar não é um sinal de fraqueza ou de tempo perdido; é a prova de que a sua essência permanece intacta, pronta para lançar o próximo fio.

Se o mundo ousar derrubar a sua estrutura hoje, não gaste energia lamentando o que se foi. Volte ao silêncio, respire fundo e teça uma vez mais!

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