Claudete MatosO Refúgio da Águia: Quando o Desaparecer é um Recomeço

O Refúgio da Águia: Quando o Desaparecer é um Recomeço

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“Vontade de sumir!”, diz uma amiga, indignada com os contratempos que ultimamente vinham tirando-lhe o sono e a vontade de viver.

“Vontade de desaparecer!”, desabafa outra, cansada de tantos desafios e da falta de compreensão das pessoas ao seu redor.

Quem nunca passou por uma situação semelhante? Quem nunca quis sair de cena, mesmo que por alguns instantes, e ter um tempo a sós consigo mesmo?

Eu e minha família fazemos algo assim — juntos, é claro — todos os anos. É o nosso refúgio nas montanhas, entre os encantos naturais e históricos de Berkshire, em Massachusetts. Quase todos os anos somos presenteados com a primeira neve da temporada — um instante sempre mágico, que renova nossa paz e nos lembra do valor do silêncio e do recolhimento.

Esses momentos sempre me fazem lembrar de uma velha lenda: a da águia que se refugia nas montanhas para passar por um período de transformação. Embora inspiradora e impactante, ela não tem comprovação científica na biologia das aves.

Do meu baú de memórias: a primeira de três entrevistas com o cantor Chris Duran. Era maio de 2002 e em outubro eu deixava o Brasil para vir morar nos EUA. O cantor tinha sua carreira profissional em transição, passando ao gospel até hoje. Sua mensagem de fé naquele dia, foi o meu ponto de virada para uma nova jornada e grandes testemunhos.

Ainda assim, ao longo da minha jornada, tenho me espelhado nessa lenda sempre que enfrento dias difíceis. Quando as férias de novembro chegam, lembro-me da ave que voa para o alto, em busca de renovação e superação.

A lenda da Renovação da Águia conta que ela poderia viver até 70 anos, mas que, ao chegar aos 40, suas garras e bico já estariam curvos e pesados, dificultando o voo e a caça. Às vezes penso que quem escreveu essa história talvez falasse de si próprio.

Diante da angústia, a águia teria duas opções: morrer ou enfrentar um processo doloroso de renovação que duraria cerca de 150 dias. Claro que a nossa ave inspiradora não se deixaria abater tão facilmente. Ela sabe que altos voos exigem altos preços, e que chegar ao topo requer determinação e persistência.

Não preciso contar a lenda toda — nem descrever em detalhes como é o meu refúgio nas montanhas. O que quero compartilhar é simples: não importa onde nem quando se refugiar, mas permitir-se um tempo para se desligar das correrias e das pessoas que drenam nossa energia faz bem para o corpo e para a alma.

A águia da lenda, depois do período de isolamento, retorna renovada, voando ainda mais alto. Da mesma forma, quando paramos para refletir e deixar para trás o que nos impede de avançar, abrimos espaço para alcançar nossos sonhos e objetivos.

É essencial avaliarmos nossos anseios e metas. Não precisamos esperar o fim do ano para traçar listas de resoluções. Quando desejamos mudança, introspecção, foco e sacrifício são inevitáveis — e, muitas vezes, indispensáveis.

Então, quando aquele desejo de “sumir” bater à porta, talvez seja apenas o sinal de que é hora de se renovar. A dor pode até fazer parte desse processo, mas, assim como a águia, você é quem escolhe o que fazer dela.

Escolha ser forte. Escolha ser resiliente. Mostre a si mesmo que é capaz de quebrar as barreiras que o impedem de ir mais longe. Você não precisa provar nada a ninguém — porque, quando se renova, sua luz brilha por si só.

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