Vou tratar de um tema que já era para ter sido objeto de meu comentário na segunda-feira desta semana, mas que não o foi por conta do falecimento do ex-ministro Manoel Dias, e também por conta da pesquisa Quest ligada a disputa pelo Governo do Estado, e senado, em Santa Catarina. Tais assuntos, tratados nos últimos dois dias, acabaram suprimindo uma análise mais pormenorizada a respeito do primeiro debate presidencial de 2026, promovido pela Band, no último domingo, e que entrou para a história política nacional não pelas propostas debatidas, mas pela demonstração explícita de covardia institucional e desrespeito ao eleitorado, por parte dos dois principais candidatos à Presidência. Com as ausências injustificadas do presidente Lula da Silva (PT) e do senador Flávio Bolsonaro (PL), além da desistência relâmpago de Romeu Zema (Novo), o confronto revelou uma patologia preocupante da nossa democracia: o pavor do contraditório por parte daqueles que lideram as pesquisas.
A decisão de Lula de não comparecer sob a desculpa de que estaria em desvantagem, somada ao cálculo pequeno de Flávio Bolsonaro de só aparecer se o principal rival estivesse presente, escancara uma visão patrimonialista e arrogante da política. Os líderes das pesquisas tratam o voto do cidadão como garantido, se recusando a prestar contas ou a submeter seus currículos e falhas ao crivo público. É o triunfo do marqueteiro sobre o estadista, a preferência pela redoma protegida das redes sociais em detrimento do debate plural exigido pela República. Prova de que a política brasileira tem se tornado a passos largos uma guerra de torcidas, e não mais um espaço para o necessário debate objetivando a construção de uma sociedade melhor.
Com metade dos púlpitos vazios, o debate da Band expôs um cenário de terra arrasada. A ausência dos favoritos esvaziou a utilidade do debate enquanto ferramenta de discernimento cívico. Restou ao trio presente, composto por Ronaldo Caiado (PSD), Augusto Cury (Avante) e Renan Santos (Missão) a tarefa inglória de preencher o espaço, oscilando entre o tom marcial de Caiado, o autopacto literário de Cury e o deboche franco-atirador de Renan.
O comportamento dos favoritos revela um cálculo cínico: apostam na polarização cega e no despreparo do eleitor brasileiro para questionar seus líderes. Quando figuras de proa fogem da raia, mandam um recado claro de que o eleitor não passa de um mero coadjuvante, cuja inteligência merece ser subestimada. A fuga sistemática do contraditório empobrece o processo eleitoral e abre espaço para o esvaziamento da democracia representativa, afinal, debates não são favores prestados pelos candidatos, mas uma obrigação moral e republicana.
Finais
Vale lembrar que fuga de debates nas eleições presidenciais no Brasil não é de hoje. Ela foi inaugurada com a redemocratização, em 1989, quando o então candidato Fernando Collor de Mello simplesmente não compareceu a nenhum deles, com exceção de um, promovido pela Rede Globo de Televisão com o nítido objetivo de beneficiá-lo. Lula, que era seu crítico contumaz por conta das fugas, incorporou o mesmo espírito antidemocrático para enfrentar sua sétima eleição presidencial. Flávio Bolsonaro, tão covarde quanto, se justifica com base no amedrontamento alheio, que, na verdade, é o dele próprio. O fato é que nossos principais candidatos à Presidência estão muito longe de serem líderes de verdade. A grande dúvida é saber se são moleques, ou se são fantoches nas mãos de seus respectivos grupos políticos, o que dá na mesma coisa.
Esta mesma lógica serve para a deputada federal Carol de Toni (PL), e para o ex-vereador carioca Carlos Bolsonaro (PL), que também têm fugidos dos debates promovidos com os candidatos ao Senado no Estado. Em relação a Carlos, o não comparecimento até se justifica, pois dificilmente ele vai saber responder alguma coisa relacionada a Santa Catarina. Quanto a Carol, sua ausência só faz Esperidião Amin (PP) ganhar espaço sobre seu eleitorado, o que, aliás, já restou provado na pesquisa do Instituto Quaest divulgada ontem, que coloca a parlamentar na terceira colocação na disputa pela Câmara senatorial. Sim, Carol tem grandes chances de eleição, por conta da nova Onda Bolsonaro que se seguirá em nível estadual e nacional, mas convém não dar sorte para o azar.









