O Brasil só não chegou a um consenso político até hoje porque não quis. Depois de anos de brigas entre direita e esquerda, bolsonaristas e lulistas, finalmente encontramos uma pessoa capaz de unir a nação. Seu nome é Daniel Vorcaro, o grande conciliador da Pátria. O ex-controlador do Banco Master conseguiu a proeza de aparecer em histórias envolvendo direita, esquerda, Centrão, Executivo, Legislativo e Judiciário. Enquanto presidentes tentam construir pontes, Vorcaro aparentemente construiu uma rodovia ligando os três Poderes.
Comecemos pelo Judiciário. O Master manteve contrato milionário com o escritório de Viviane Barci de Moraes, esposa de Alexandre de Moraes. Investigações também revelaram mensagens atribuídas a Vorcaro e Moraes e encontros entre ambos. Kevin de Carvalho Marques, filho de Kassio Nunes Marques, confirmou ter recebido R$ 281 mil por serviços à Consult Inteligência Tributária, empresa que, segundo o Coaf, recebeu R$ 6,6 milhões do Master. Luiz Fux entrou no roteiro pelo filho Rodrigo Fux, que manteve contatos e reuniões envolvendo Vorcaro. Dias Toffoli também aparece nas apurações, enquanto André Mendonça encontrou-se com Vorcaro em 2025. Alexandre de Moraes, Toffoli, Mendonça, Fux e Nunes Marques. Cinco ministros do STF. Isso já não é networking. É quase sessão plenária.
No Legislativo, Ciro Nogueira, senador do Progressistas, ex-ministro de Jair Bolsonaro (PL) e expoente do Centrão, aparece em investigação relacionada ao Master e a suspeitas de pagamentos. Jaques Wagner, senador do PT e líder do governo Lula, também entrou nas apurações. Pronto: bolsonarismo e lulismo contemplados. Hugo Motta apareceu em documentos relacionados a hospedagens atribuídas a Vorcaro. ACM Neto e Antônio Rueda foram citados em alegações do banqueiro relacionadas a investimentos de institutos previdenciários no Master.
Flávio Bolsonaro (PL) não poderia ficar de fora. A investigação de Dark Horse, cinebiografia de Jair Bolsonaro, revelou negociações entre ele e Vorcaro para obtenção de recursos destinados ao filme. Jair Bolsonaro entra indiretamente: além de protagonista de Dark Horse, teve Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro, como grande doador individual de sua campanha de 2022.
No Executivo, Lula confirmou ter recebido Vorcaro no Palácio do Planalto, em encontro articulado por Guido Mantega, ex-ministro da Fazenda e consultor do Master. Participaram também Rui Costa e Gabriel Galípolo. Ricardo Lewandowski, depois de deixar o STF e antes de assumir o Ministério da Justiça, prestou serviços ao Master. No entorno dessa confraternização nacional aparecem ainda Cláudio Castro e referências ou relações envolvendo Davi Alcolumbre, Tarcísio de Freitas e Nikolas Ferreira.
Finais
Façamos a chamada. No Judiciário: Alexandre de Moraes, Dias Toffoli, André Mendonça, Kassio Nunes Marques e Luiz Fux, com Kevin Marques e Rodrigo Fux também aparecendo nos episódios envolvendo seus pais. No Legislativo: Ciro Nogueira, Jaques Wagner, Hugo Motta e Flávio Bolsonaro, além das alegações envolvendo ACM Neto e Antônio Rueda. No Executivo: Lula, Rui Costa, Guido Mantega e Ricardo Lewandowski, com Gabriel Galípolo no Banco Central. No entorno político: Jair Bolsonaro, Cláudio Castro, Davi Alcolumbre, Tarcísio de Freitas e Nikolas Ferreira.
O fato é que, enquanto brasileiros brigavam, e ainda brigam por Lula ou Bolsonaro, Vorcaro parecia seguir uma filosofia mais ecumênica: relacionamento institucional não escolhe lado. Uma campanha presidencial sua nem precisaria de marqueteiro. O slogan estaria pronto: “Daniel Vorcaro, unindo o Brasil através de Brasília”. É claro que contratos de prestação de serviço não constituem crime, assim como também não o constituem patrocínios ou troca de ligações telefônicas ou mensagens. Todavia, Vorcaro parecia nunca dar ponto sem nó. E quanto aos nós, pelo menos em tese, tem-se a impressão que todos eles sabiam com qual propósito estavam sendo apertados.









