Há mais de dez anos, sou professora de Comunicação nas primeiras fases de cursos técnicos e superiores. Minha profissão traz uma possibilidade muito enriquecedora e, ao mesmo tempo, perturbadora. Testemunhei, na última década, mudanças significativas no perfil de comunicação dos jovens. As transformações deste último ano foram ainda mais intensas — um quadro recente, mas que demandará um esforço extra para que os talentos da nova geração sejam inseridos de forma assertiva nas organizações, permitindo que todos encontrem um terreno comum para a produtividade, o bem-estar e a inovação.
As mudanças aceleradas na maneira como os jovens constroem seu repertório têm uma origem evidente: o uso da inteligência artificial generativa no período escolar. Como aponta o recente Marco Referencial de Competências em IA para Professores, publicado pela UNESCO, a IA transformou a relação tradicional de comunicação e aprendizagem. A maioria dos jovens que concluiu recentemente o ensino médio (e chega ao mercado ou à universidade) passou pelos anos finais da escola em um ambiente já mediado pela IA.
Se antes a experiência educativa era pautada estritamente pelo diálogo entre quem ensina e quem aprende, atualmente vivemos uma dinâmica triádica: o professor, a IA e o estudante. Essa nova configuração altera profundamente a base educacional desses jovens, o que se reflete diretamente no modo como eles constroem conhecimento e se comunicam. Diante dessa realidade, a pergunta sobre estarmos ou não em crise ganha novos contornos, exigindo um olhar atento sobre o que precisamos manter e o que devemos cobrar dessa nova geração.
O que a liderança deve manter: Para liderar essa geração imersa em automação, as organizações precisarão investir em educação corporativa e desenvolver novas competências entre suas equipes. Os líderes e profissionais consolidados devem focar em três pilares essenciais:
- Mentalidade centrada no ser humano: Garantir que a tecnologia atue para ampliar a autonomia, a criatividade e o bem-estar de todos, e não para substituir o pensamento crítico.
- Ética e discernimento: Promover a responsabilidade no uso de dados e no questionamento das informações geradas por algoritmos.
- Comunicação conectiva: Estimular diálogos profundos e vinculados a problemas reais do cotidiano, combatendo o hábito das respostas superficiais ou prontas.
O desafio para os jovens: Por outro lado, os jovens precisam considerar as falhas da IA na comunicação interpessoal. A ferramenta otimiza tarefas, mas é incapaz de proporcionar a experiência do contato real: olhar nos olhos enquanto se defende um projeto, fazer uma ligação telefônica estratégica para fechar um negócio, ou receber um “não” e saber contra-argumentar ao vivo.
O Caminho do Meio: O desafio atual não é proibir a inovação, mas entender que a IA deve figurar como uma ferramenta de apoio, excelente para otimizar rotinas e processos operacionais. O caminho mais assertivo para evitar uma ruptura definitiva na comunicação é investir em experiências corporativas e educacionais que valorizem e estimulem o desenvolvimento ativo da linguagem oral e escrita.
Ainda não sabemos quais transformações as tecnologias emergentes trarão no curto prazo. No entanto, o passo imediato e crucial é garantir que a nossa capacidade de se comunicar e se conectar de verdade permaneça protegida das facilidades — e das fragilidades — que a inteligência artificial apresenta.








