Por Karem Suyan
As Listas do Ódio incentivam, nas pequenas e grandes cidades do Brasil, boicotes a quem não votou na direita. Como se a convicção política desse a alguém o direito de punir quem vota diferente. Esta prática espúria ameaça a liberdade, a dignidade e os direitos. Em Araranguá (SC), são pelo menos 90 famílias atingidas. Entre elas, a minha.
Vamos entender o contexto:
- NÃO É UMA QUESTÃO DE COMPRAR ONDE QUISER
Todos podem escolher onde gastar e quem contratar. Numa democracia, isto não se discute. Mas decidir sobre o próprio dinheiro não autoriza campanhas para expor, intimidar, ameaçar e perseguir pessoas, nominando-as e tentando retirar o sustento de suas famílias por uma escolha eleitoral.
- NÃO É UMA QUESTÃO DE OPINIÃO
A liberdade de voto é assegurada pela Constituição. Produzir ou disseminar material de intimidação e assédio gera responsabilidade civil e criminal.
Tu podes concordar com a lista. Mas tua opinião não muda o fato de que ela é ilegal. O direito de opinar não concede a ninguém licença para cometer ou incitar crimes.
E VOTAR NÃO É CRIME. AMEAÇAR e PERSEGUIR alguém por causa disto É.
- ISTO NÃO É POLÍTICA
Nenhum partido prevê assediar, intimidar ou tirar o sustento de alguém. Provocar este temor num adversário não é um ato político. É desvio de caráter.
Por isso, os partidos precisam repudiar este tipo de violência. As legendas devem apurar a participação de seus integrantes e aplicar as sanções estatutárias, inclusive a expulsão. Um partido que queira o bem da sociedade não pode dar abrigo a intimidadores.
- O ANONIMATO É A ARMA DO COVARDE
Que honra há em expor famílias a todo tipo de desproteção e se esconder no anonimato? E há quem compartilhe e apoie abertamente nas redes sociais, produzindo provas contra si e servindo de massa de manobra, enquanto os idealizadores se escondem.
- CONVIVER EXIGE MATURIDADE E RESPEITO
Resultado eleitoral não autoriza humilhação, exclusão ou constrangimento nem de quem ganhou e nem de quem perdeu.
Não podemos aceitar que divergência vire inimizade, brutalidade seja confundida com autoridade e insolência e incivilidade sejam celebradas como normais.
É estarrecedor que “defensores” da liberdade e da democracia exijam silêncio, obediência e submissão de quem pensa diferente. Que democracia e liberdade são estas em que o adversário deve ser humilhado, oprimido e economicamente aniquilado?
- NUMA CIDADE PEQUENA, A FERIDA É MAIS PROFUNDA
Imaginem descobrir que um amigo, colega ou familiar que convive conosco e com nossos filhos ajuda, às escondidas, a retirar o sustento da nossa casa. Alguém a quem estenderíamos a mão se precisasse.
Essas listas atingem também funcionários, fornecedores e dependentes, inclusive quem votou como os perseguidores. Rompem a confiança na família e na comunidade, que, afinal, constituem uma pátria.
Que tipo de amor a pátria é capaz de desejar a ruína dos próprios compatriotas? Que defesa da família se regozija diante da possibilidade de outra família perder o sustento?
- OMISSÃO TAMBÉM É UMA AÇÃO
Quem se cala por educação, prudência ou para preservar relacionamentos agora precisa se manifestar. Nosso silêncio permitirá que a intimidação avance e a crueldade se torne socialmente tolerável. Câmaras de vereadores, prefeituras, CDLs, partidos, empresas, associações e pessoas precisam se posicionar.
Hoje, estou sendo hostilizada por causa de meu voto. Amanhã, tu e tua família estarão em risco por uma escolha, uma palavra ou uma convicção que não agrade a esta turba. Não precisamos esperar que isso alcance a vida de todos para tomar uma providência pacífica, mas contundente.
Todos que desejam viver numa sociedade livre precisam respeitar a liberdade dos outros e lutar por ela. A história conhece as consequências da demora em reagir à perseguição e à desumanização.
- A CONSEQUÊNCIA
Esta situação nos fará passar por dificuldades financeiras, mas não é só isto. As Listas do Ódio deram poder para ameaças de morte, violência nas escolas, xingamentos e stalking. Isto não é engraçado e não é simplesmente escolher onde comprar. Não posso acreditar que as pessoas apoiem estas atitudes que, inclusive, contrariam os ensinamentos cristãos.
- SEJA O EXEMPLO
De minha parte, não me deixarei ser intimidada por exercer um direito que tenho. Não atravessei minha existência para entregar a terceiros o enredo de minha história, que construí com muita dignidade e trabalho. Vou me defender dentro da lei, porque confio na justiça dos homens — e na de Deus. E não vou abandonar a luta enquanto alguém estiver sofrendo esta injustiça.
Não confundam disposição para a paz com incapacidade de lutar.












