Luiz LlantadaAs patagônias

As patagônias

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Lá por 1970 eu trabalhava no Banco do Brasil, em Candelária (RS). Um dia uns amigos me convidaram a ir com eles à Argentina para caçarmos marrecas “patagônia”. Elas têm este nome por serem nativas da região de mesmo nome, no extremo sul da América latina. Numa madrugada saímos em excelentes camionetas, muito bem equipados (armas, munição, cachorros e mantimentos). Também levamos muita cachaça, vinho e cerveja, claro.

 

Ao chegarmos na Patagônia fiquei maravilhado com a beleza do lugar. Montanhas, campos, florestas, rios e lagos cristalinos. Para embelezar mais o cenário, ainda caía neve, e tudo ficava branco. Instalamo-nos confortavelmente em barracas num lugar seguro e aprazível. E partimos para a caçada. Quer dizer… Eles, né? Eu fui mais por companheirismo; passear, fazer trilhas, comer churrasco e beber. Eu dava uns tirinhos, mas só em torno do acampamento.

 

As patagônias voam a grandes altitudes. São muito resistentes. Para abatê-las é preciso chegar-se o mais perto possível donde elas estão, de forma que elas não fiquem distante demais. A munição deve ser adequada senão, mesmo atingidas, elas não despencam ali, na hora. Às vezes uma cai por estar muito ferida, ou continua voando e vai cair longe dali. Além do físico forte, o frio também lhes ajuda e faz com que se recuperem e sobrevivam.

 

Se uma patagônia tá voando baixo é porque já levou muitos tiros, daí o peso do chumbo não lhe permite voar mais alto. No último dia abatemos cerca de cinquenta. Como já estava na hora de voltarmos, colocamo-las dentro de isopores com gelo. Algumas já meio mortas, outras feridas. Devido à pressa, não as limpamos, deixando para fazê-lo ao chegar. Com o tempo da viagem esperávamos que todas chegariam mortas.

 

Um companheiro, o Braguinha, tinha lugares e equipamentos suficientes para armazená-las. Gentilmente ofereceu sua casa para nela deixarmos as aves. Até porque, disse ele, no dia seguinte sua empregada as limparia e depois as dividiríamos. Chegamos à sua casa já de madrugada. Colocamos as patagônias nos freezers. Conferimos se estava tudo bem fechado e fomos dormir.

 

Aconteceu então uma fatalidade. No dia seguinte, encontramo-nos com o Braguinha para repartir a caça, quando ele nos deu a má notícia: – Sua empregada chegou cedo, abriu as janelas e, logo em seguida, as tampas dos freezers. Daí ela levou um susto. Durante a noite a maioria das patagônias descansou e se recuperou, pois a temperatura dos freezers era muito semelhante à do hábitat onde viviam. Ainda comeram alguns resíduos de alimentos que ali estavam espalhados. Então alçaram voo e saíram pelas janelas ainda abertas, em bando e em revoada, retornaram para casa. Nunca mais as vimos.

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