Hoje eu vi uma postagem no Instagram que recuperou algumas memórias da minha vida escolar. Na imagem estava Hermione ( do filme Harry Potter), sentada na sala de aula, com a mão levantada. Na legenda, uma afirmação: “ A gente aprendeu cedo que a menina que levantava a mão era a chata.” Se você frequentou a escola, na sua turma, havia “a menina/o menino que levantava a mão”. Você lembrou dela ou dele e sentiu alguma coisa. Abuso, graça, admiração, tédio…Não lembrou de ninguém? Então, provavelmente, você era a menina/o menino da mão levantada.
No meu caso, eu era uma menina de mão levantada. Não a única da sala, não a mais rápida, não a mais chata (eu confio nisso, tá?!), não a mais esperta, apenas mais uma mão insistente entre tantas outras de colegas com as mãos levantadas. Aliás, a minha turma sempre foi ocupada por crianças participativas. Então, de tempos em tempos, eu sentia que precisava reduzir a minha participação, deixar os outros falarem, especialmente aqueles menos participativos. No começo da minha vida escolar, eu não percebia essa necessidade. Então, fui educada a compreender a sútil arte de “deixar outro amiguinho participar também”.
Funcionava assim, a professora fazia a pergunta, levantávamos as mãos e ela, sem dizer uma palavra, desviava o olhar das crianças participativas e chamava aquele coleguinha que quase nunca falava. O olhar caçador da professora funcionava como termômetro. Quem era do time dos participativos entendia que, na próxima pergunta, não adiantaria levantar a mão. Estava mais do que na hora de guardar as mãos nos bolsos ou cruzá-las sobre a carteira para apoiar o rosto. A partir dali, a minha função deveria ser como ouvinte.
Eu não posso dizer que amava isso, mas com o tempo, entendi como funcionam espaços coletivos: muitas vozes e o direito de falar e ser ouvido para conviver bem em grupo. As professoras precisavam ouvir todos para identificar quem já tinha aprendido ou suas dúvidas. Os demais colegas precisavam aprender a elaborar em voz alta aquilo que tinham escutado. Quanto aprendizado a escola nos oportuniza!
E, hoje, ao olhar para traz, consigo recuperar com muito carinho esse momento de alternância de vozes na escola. Aprender a ouvir também é uma prática que a escola precisa ensinar. Na postagem que vi hoje mais cedo, a intenção do texto era diferente do que trouxe de reflexão por aqui, mas achei válido compartilhar com vocês essas divagações sobre a experiência escolar. Entender isso desde a infância ajuda-nos a crescer como pessoas, profissionais e sujeitos na sociedade. Nessa dinâmica da alternância do discurso, experimentamos a frustração, os limites e o esforço da convivência diária.
Em tempos de comunicação tão superficial e rápida, buscar referências do seu tempo de escola pode ajudá-lo a entender por que você se comunica da forma como se comunica. Vale a pena se perguntar: Quem você era na escola? Eu era a menina que levantava a mão, com as dores e as delícias de gostar de falar o que penso. Hoje, mais uma vez, sinto que honrei essa menina. Nem todo dia é assim, mas gostei de lembrar disso. Espero que o meu texto ative uma boa memória aí e faça você reforçar o que tem de mais original, genuíno e feliz da sua essência. Hoje eu honrei a menina da mão levantada e deixei ela aparecer por aqui.








