Você leu exatamente isto: im.per.fec.ci.o.nis.ta. O conceito está no livro O Potencial Oculto: como extrair o melhor de você e dos outros, de Adam Grant. Vou pegá-lo emprestado para falar sobre os bloqueios que muitas pessoas desenvolvem em comunicação e oratória.
O imperfeccionismo se inspira na história de Tadao Ando, arquiteto japonês de relevância internacional. Para ele, o objetivo como arquiteto não era alcançar a perfeição, mas chegar ao “perfeitamente aceitável”. Seus projetos valorizavam as características acidentadas dos terrenos e a iluminação natural, e cuidavam para que os materiais da obra não roubassem o foco da beleza ao redor das construções. Ele, um imperfeccionista, a meu ver, que guardava também uma atitude humilde e contemplativa diante de belezas que não foram criadas por ele. Em vez de esconder as marcas naturais, Ando as incluía no projeto: o concreto aparente, a luz que muda ao longo do dia e interage com o espaço, o ambiente que respira e se integra ao lugar. A imperfeição aparece como assinatura do artista.
O que mais me surpreendeu é que a concepção de Ando como arquiteto vem do wabi sabi, que significa honrar a beleza da imperfeição, daquilo que é simples, incompleto e marcado pelo tempo. O wabi sabi tem provável origem no Japão do século XVI, quando tigelas lascadas e louças gastas passaram a substituir peças primorosas e sofisticadas nas cerimônias japonesas do chá.
E o que isso tem a ver com comunicação e oratória? Muita coisa. A maior parte das pessoas com receio de falar em público, gravar vídeos ou escrever textos autorais têm bloqueios associados a uma exigência acima da média, buscam alcançar uma perfeição que não existe e que nunca será plenamente atingida. Os melhores oradores, inclusive, são aqueles que acolheram algumas de suas supostas imperfeições e tiveram a ousadia de falar sem chegar à perfeição pretendida.
Agora que a inteligência artificial nos entrega textos impecáveis em segundos e apresentações primorosas, a perfeição técnica já não comunica tanto quanto a mensagem de um orador autoral e original. Uma comunicação pode ser mais eloquente quando o mensageiro preserva suas pequenas “lascas” ou “desgastes” adquiridos com o tempo. Na comunicação, as pessoas com a presença de alguém real, imperfeito, incompleto. Confiança da verdade que se revela em camadas: olho no olho, regionalismos, jargões, expressões peculiares que fazem parte da nossa identidade.
Ser imperfeccionista, no sentido que proponho aqui, não é desleixo nem desculpa para tornar a comunicação menos compreensível. É exercer a fala sem carregar o peso e a obsessão de parecer perfeito. É publicar um conteúdo bom o suficiente para ser útil, em vez de esperar um perfeito que nunca chega. É deixar a voz aparecer, mesmo quando tropeça no meio da frase.
Há alegria nisso: largar o peso de ser impecável o tempo todo e entender que o mais humano em nós costuma ser o que menos se parece com um modelo perfeito.
Quantos perfeccionistas não estão por aí, silenciosos, com muito potencial para embelezar nossos ambientes imperfeitos? Você seria um deles? Se for, talvez seja hora de honrar a beleza que há na imperfeição.










